Para os olhos mais fechados: Changeling e o Sonhar

Algo que encontrei perdido num blogue meu já abandonado, adaptado de um artigo original de Bruno Gonçaves Canato:

Um changeling é um ser de contrastes – uma alma feérica presa num corpo humano, que cultiva o Glamour, a energia básica dos sonhos e da criatividade, para resistir ao frio da Banalidade, a descrença humana no mágico e no transcendental. Contudo a exposição prolongada ao Glamour pode levar ao Desvairo, a perda da razão e existência humana, e a inevitável exposição à força da Banalidade conduz igualmente à Ruptura, a obliteração da alma feérica. Como se isso não bastasse para que um changeling fosse um ser dividido, todos os Kithain – o nome ao qual respondem – têm um lado Seelie e outro Unseelie, as duas Cortes a que estes prestam fidelidade e são muito mais do que meras instituições sociais.

Os changelings vivem uma realidade dupla. Mesmo antes de passarem pela Crisálida – evento que desperta a sua alma feérica adormecida no seu corpo mortal – os changelings têm ocasionalmente visões de coisas que “não estão realmente lá”, uma esfera da realidade além da que os outros habitantes do Mundo das Trevas são capazes de percepcionar. Esta é a realidade quimérica, formada de sonhos, esperanças, medos, sentimentos e que, mesmo num mundo cada vez mais Banal, ainda existe em inúmeros lugares. A realidade quimérica é percepcionada pelos changelings ao mesmo tempo que a realidade mundana – não é equívoco então que muitos mortais ou sobrenaturais considerem-nos aéreos e distantes.

Contudo, não é só a realidade quimérica e a mundana que se sobrepõem na vida de um changeling. Embora tenha que cumprir todas as obrigações rotineiras que um mortal normal tenha – teoricamente – este insere-se também numa sociedade Kithain estratificada, de carácter feudal e que distingue a nobreza da plebe, rege-se por títulos, códigos e intrigas, tendo como princípio a manutenção das Propriedades Livres, locais mágicos onde um Lumieiro aquece os changelings com Glamour.

Changelings dividem-se, além de por seus Aspectos – que demonstram as suas faixas etárias – e por suas Cortes – atrás referidas -, em kiths, as raças lendárias de fadas. A principal divisão de kiths é entre os nobres – basicamente os sidhe – e os outros plebeus, os outros oito kiths mais comuns – boggans, eshus, nockers, pooka, redcaps, sátiros, sluagh e trolls. Cada kith, curiosamente, tem uma espécie de comportamento padrão e também uma aparência quimérica recorrente – o seu Semblante Feérico – tal como Direitos Inatos e Fraquezas que lhes são naturais.

Os Kithain são capazes não só de percepcionarem o todo da realidade como também a capacidade de acederem a uma espécie de plano paralelo, o Sonho, o conjunto de todos os sonhos, esperanças e temores da humanidade. Este plano, apesar de muitas vezes estar conectado à Umbra, não faz parte dela, e é o berço de todas as possibilidades dentro do Mundo das Trevas, podendo abrigar tanto maravilhas como terrores antigos.

Existem muitas maneiras de manipular o Glamour. A mais conhecida – e talvez mais poderosa – é a criação de Cantrips, a combinação de Artes – o potencial concretizado de todas as possibilidades mágicas do Sonho – com os Reinos – aspectos da realidade com os quais os Kithain têm afinidade. Os efeitos dessa combinação variam entre si e vão desde a criação de maldições e de ilusões à manipulação do destino. Há também a possibilidade de se fazer um Apelo ao Fado, o que permite a um changeling materializar o seu Semblante Feérico no mundo mortal, e também o poder de tecer um Encantamento, que permitirá a um ser não-feérico percepcionar o Sonho e interagir com esta realidade quimérica. Todos estes poderes, contudo, estão sujeitos aos efeitos das Brumas, uma força não-sentiente que apaga temporariamente – e por vezes permanentemente – as memórias do Sonho das mentes Banais .

O Glamour, cada vez mais escasso, pode ser extraído de várias maneiras. Através das Epifanias, ou devido à permanência em Propriedades Livres. Este necessidade é sempre valorizada pelas fadas, independentemente da sua Corte ou Aspecto. Conseguir ter acesso a tal energia, contudo, é cada vez mais difícil, devido não só à proliferação de pessoas cada vez mais Banais com também devido ao fim cada vez mais generalizado dos sonhos e da inocência.

Dando-lhe agora uma vista de olhos não estou muito contente com os termos Propriedades Livres e Lumieiro. Mas também não tenho uma ideia de como os traduzir neste preciso momento.

Para quem não conhece este texto é acerca de um jogo de RPG chamado Changeling: the Dreaming da White Wolf Game Studios que já está descontinuado. O seu sucessor espiritual é o Changeling: the Lost que ainda é mais brilhante que o antecessor.

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2 comments on “Para os olhos mais fechados: Changeling e o Sonhar

  1. R.G. Caetano diz:

    Excelente artigo! Continue com o ótimo trabalho.

    Aguardando mais matérias sobre os jogos da White Wolf.

    • jrmariano diz:

      Obrigado pelo elogio, Caetano, apesar de que o mérito do artigo original não ser meu.

      Por acaso sim, estou a pensar em escrever mais sobre os jogos da White Wolf, especialmente os da linha World of Darkness.

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