Encontros & Desencontros: Report da LeiriaCon e do TáQuinas D&D Gameday

Bem, passados alguns meses desde a LeiriaCon 2010 (esta ocorreu a 30 e 31 de Janeiro na Quinta do Pinheiro, perto de Alcobaça) e algumas semanas desde o D&D Gameday em Coimbra organizado pelo grupo TáQuinas (a 20 de Março deste ano) eis que me decidi a relatar por escrito as minhas impressões e conclusões acerca dos dois eventos, especialmente no seu papel de divulgação e promoção do RPG.

Quanto ao Encontro Nacional de Roleplayers na LeiriaCon posso dizer que em jeito de balanço que este correu mais ou menos bem com um saldo final positivo. Mas já elaboro mais sobre esta minha conclusão.

Pelas contas do Ricardo Tavares, o Encontro Nacional teve 6 sessões de jogo feitas por 3 mestres-jogo para um total de 15 participantes e 4 RPGs diferentes

O Ricardo Tavares, autor do podcast Jogador-Sonhador apresentou o seu projecto de RPG, o “Sangue-frio – Histórias dos Últimos Vampiros” e orientou duas sessões, uma no sábado e outra no Domingo.

O jogo baseia-se na execução um ritual vampírico onde os últimos destes seres sobrenaturais, residentes neste fim-de-mundo que é Portugal (a verdadeira finisterra no que lhes diz respeito) tentam se lembrar do seu passado, depois de um longo período de torpor, recorrendo aos oráculos de um baralho de cartas e um diário escrito por um leal ghul.

Sangue-frio na LeiriaCon 2010

Por e-mail ele revelou-me que:

Como autor do RPG “Sangue-Frio: Histórias dos Últimos Vampiros”, as duas sessões que orientei no fim-de-semana do LeiriaCon foram especialmente proveitosas. Não só é sempre bom ter a oportunidade de ver como um jogo feito por mim funciona na práctica, como também é óptimo poder jogar com pessoas diferentes daquelas com que normalmente jogo. Além disso, o Sangue-Frio é um RPG sem mestre-jogo, o que me permite apresentá-lo sem ter demasiada influência naquilo que o grupo percebe que pode fazer com o jogo. Mais informação sobre como este RPG funciona está disponível em http://ultimosvampiros.blogspot.com (onde também é possível descarregar uma versão gratuita).

A primeira sessão foi jogada no Sábado e decorreu durante a tarde, começando com três jogadores aos quais a meio se juntou um quarto (algo que está previsto ser possível acontecer no jogo). Neste caso, foi especialmente interessante ver como as histórias de cada vampiro eram bastante diferentes, mas, ao mesmo tempo, começaram a cruzar-se no momento em que os jogadores quiseram ir por esse caminho. A sessão foi longa e terminou a tempo da janta, mas, mesmo assim, deixou vontade de continuar a jogar para ver o que poderia acontecer a seguir.

A sessão jogada no Domingo foi mais curta e contou com três vampiros à mesa do princípio ao fim. Desta vez, já não foi possível passar pelas regras todas nem chegar ao ponto em que as histórias eventualmente começassem a se cruzar, mas logo à partida evocaram-se cenas bastante fortes que certamente dariam muito pano para mangas se tivéssemos tido mais tempo.

No geral, as duas sessões de Sangue-Frio foram excelentes para obter feedback e para rapidamente ver surgir histórias com bastante potencial. Aproveito para agradecer mais uma vez a todos os que as jogaram comigo.”

Se quiseres saber mais sobre a experiência do Ricardo na LeiriaCon 2010 em geral, e com o Sangue-frio em particular, podem sempre ouvir o Episódio 9 do seu podcast, o “Jogador-Sonhador”. Se quiserem comentar esse e outros episódios podem sempre dar um saltinho no fórum oficial do podcast, localizado no TPK Brasil.

Na LeiriaCon jogou-se também Spirit of the Century no Sábado de manhã (c0m quatro participantes), Mouse Guard Roleplaying Game (cinco participantes) e Warhammer Fantasy Roleplay 3rd Edition de tarde (com cinco participantes). No outro dia jogou-se igualmente Warhammer de tarde (com quatro participantes).

Spirit of the Century na LeiriaCon 2010

A sessão de Spirit of the Century, um jogo baseado no sistema FATE sobre heróis de histórias pulp, correu bastante bem. Corri a demo de 15 minutos usadas em convenções que envolve três personagens pré-feitos e uma situação e cena bem focadas e contidas mas com um bom chamado para a acção. Os jogadores divertiram-se bastante e até alguns deles que já o haviam jogado antes. Se não estou em erro fiz uma alteração ao sistema de consequências físicas e sociais (o “dano” do jogo) para a história se revelar mais perigosa e emocioante. Mesmo assim os personagens nunca realmente estiveram na mó de baixo, o que é realmente entra dentro do espírito das fontes pulp fiction.

Por meu lado não pude participar da sessão de Mouse Guard Roleplaying Game pois estava a correr nesse momento a demonstração de Warhammer. Tenho pena do sucedido pois este é um daqueles jogos que estava bastante interessado em experimentar.

Neste caso, o Diogo Curado, conhecido como RedpissLegion (ou RPL), foi o Mestre-de-Jogo (e também o outro organizador do Encontro).

Mouse Guard na LeiriaCon 2010

O Marco Godinho do Táquinas, conhecido como Darth_Gostoso, fez a seguinte apreciação da sessão de Mouse Guard no Abre o Jogo (um portal da comunidade portuguesa de RPGs e boardgames):

(…) no Sábado o RedPissLegion mestrou Mouseguard para mim, o Lord of Blades, o Kissing Crimson e o Tanuki e acho que falo por todos ao dizer que gostámos bastante da sessão. O sistema é simples o suficiente para ser um RPG gateway e complexo o suficiente para agradar a quem é mais batido nestas andanças. O setting é muito interessante com uma abordagem «Querida Encolhi os Miúdos» (na escala herói-mundo) e o RPL fez um excelente trabalho a explicar o sistema e a correr a sessão.”

Para uma descrição mais “sonora” da experiência do grupo do TáQuinas no Encontro (e na LeiriaCon) ouçam o Episódio 2 do podcast “Ataque de Oportunidade”, acessível a através do seu blogue e onde eles falam um pouco mais sobre esse tema.

Quanto à demonstração de Warhammer Fantasy Roleplay 3rd Edition posso dizer que correu com bastante emoção e entusiasmo, especialmente a sessão de Domingo. Corri a história de introdução disponibilizada pela Fantasy Flight Games, a “One Day Late, A Shilling Short”. Esta não é nada mais do que duas situações de conflito em arenas diferentes, uma bélica e outra diplomática.

Na primeira sessão atrapalhei-me um pouco na adjudicação das regras (apesar de já ter corrido o jogo uma vez antes desta) e na organização e preparação dos componentes. Foi difícil articular as expectativas de alguns jogadores quanto ao jogo sendo que alguns eram fãs hardcore das edições mais antigas.

Na segunda sessão, e provavelmente devido à minha vontade de corrigir os erros do dia anterior e à boa onda dos participantes, correu muito bem apesar de não ter sido concluída.

Acho que o Warhammer nesta edição é um bom jogo de fantasia grim & gritty com laivos de horror. Consegue a proeza de ser original nalguns aspectos (o uso dos componentes, cartas específicas e dados com símbolos) mas mantendo a familiaridade do RPG tradicional. Parece-me ser um bom RPG de introdução a novos jogadores (dada acessibilidade da informação ao alcance imediato de cada jogador) mas não tanto de novos Mestres-de-Jogo dado que ainda é preciso um grande esforço de adjudicação de regras por parte deste.

Por acaso eu e o Ricardo Tavares falamos bastante dele e da LeiriaCon 2010 no Episódio 11 do Jogador-Sonhador. Estão desde já convidados a ouvi-lo.

Acabamos por não experimentar (para grande pena minha) o Geist: the Sin-Eaters, o RPG da White Wolf pertencente ao universo de mistério sobrenatural do World of Darkness. Não me parece que tal tenha acontecido por falta de interessados mas sim por problemas de organização das sessões a serem jogadas.

Como disse no Abre o Jogo, em jeito de balanço:

Tínhamos uma sala à parte e outras mordomias mas acabámos por estar bastante desencontrados (quer em horários quer em locais de jogo).

Apesar de termos feito uma lista de intenções relativamente ao que se queria ou se podia jogar essa não foi usada o que não ajudou nada à organização. O tentar encaixar qualquer jogador que apareça na hora não ajuda muito à dinâmica de grupo.Por outro lado também não se conviveu muito num todo. Sei que houve pessoal que almoçou junto mas nunca conseguimos concentrar toda a gente no mesmo local. Realmente os boardgames ajudam a concentrar o pessoal num mesmo evento (…) mas ajudam a dispersar bastante quem poderia estar mais participativo nos RPGs.

Por outro lado com poucos Mestre-de-Jogo e mesas de jogo, os tabuleiros ajudaram muito como alternativa a quem ficava de fora.”

Lembro-me que finalizei esse comentário com um desabafo acerca de ter tentado me dividir demasiado pela organização do evento de RPGs, pela participação na LeiriaCon em geral e fazer de anfitrião à namorada e amigos mais próximos e como isso não me trouxe um grande gozo mas uma boa dose de frustração e ansiedade. Além de que quem organiza nunca se diverte tanto, certo? Tal como um DJ? 🙂

Quanto ao D&D Gameday, um evento promovido periodicamente pela Wizards of the Coast onde se joga uma mesma história de Dungeons & Dragons por vários jogadores a nível mundial, posso dizer que o grupo que o organizou em Coimbra, o Táquinas fez um bom trabalho.

Ao todo foram seis mesas com 36 jogadores (se não estou em erro) onde se experimentaram as novas classes, raças e poderes do Player’s Handbook 3.

D&D Gameday em Coimbra - Centro Comercial Avenida

Ao contrário da LeiriaCon fui com total disponibilidade para jogar (e apenas jogar) RPG, neste caso o D&D 4ª Edição que nunca havia experimentado, da qual gostei bastante dentro do nicho do jogo de RPG de fantasia táctica com quadrículas.

Lembro-me de comentar o seguinte no Abre o Jogo:

Os encontros foram estimulantes tacticamente (apesar de não ser o meu forte) e ainda conseguimos dar um cheirinho de interpretação e de humor com os personagens. Gostei do olhar de perplexidade do Diogo quando o meu personagem se dirigiu a um dragão de gelo aprisionado para negociar compensações extra quanto à sua libertação. Mas aparentemente o Kalen é um ardente lutador emocional mesmo diplomaticamente.”

Percebo porque é que lhe tecem tantos elogios e o convidam a jogar antes de consolidarmos a nossa opinião.  Pessoalmente acho que gostava de uma disposição espacial menos detalhada e de me livrar das várias “Conditions” que populavam todo o mapa e eram uma chatice para articular.

D&D Gameday Coimbra - O meu grupo de jogo

Foi bastante confortante ir a um evento onde toda a gente queria jogar RPG e apenas RPG, ao contrário da LeiriaCon. Claro que neste caso o RPG em questão era D&D o que contribui de certeza para o sucesso da iniciativa (que já vai na terceira edição nas mãos do TáQuinas sempre com bastante adesão) pois foca a expectativas e o entusiasmo dos participantes numa experiência emocionante e bastante táctil, com grande tradição e popularidade.

Os membros do grupo TáQuinas inclusive falaram em jeito de resumo no Episódio 3 do “Ataque de Oportunidade”.

Os organizadores foram bastante receptivos a que se jogassem outros RPG nesse dia ou no outro dia a seguir (já fora do evento). Contudo, de minha parte, achei mais importante conviver num jantar que ocorreu no próprio dia e que conseguiu juntar muitos jogadores de RPG de fora de Coimbra e que nunca haviam participado num evento destes.

Ficou no ar numa próxima edição de se alargar para um segundo dia, aberto a outros RPGs. E por mim estou disponível e podem contar comigo. Contudo acho que a chave do sucesso do Gameday é a concentração de massa-crítica à volta de um jogo em específico, o que poderá facilmente dissipar-se no dia seguinte.

Ambos os eventos foram importantes para consolidação e promoção do RPG mas é aparente qual deles parece ter sido o mais bem sucedido. Para a divulgação é preciso chegar ao público-alvo de maneira massiva e não só apelando à conversão de fãs transversais ao gaming em geral. É preciso uma boa comunidade de suporte que sirva de rampa de lançamento. Acho que foi o que o TáQuinas conseguiu alcançar.

Em jeito de conclusão e a nível pessoal, acho que a lição aprendida com a LeiriaCon e com o D&D Gameday é que poderei concentrar os meus esforços futuros no que diz respeito  a eventos de promoção e divulgação de RPGs  num papel mais de suporte. A organização não é mesmo o meu forte apesar do meu entusiasmo e predisposição para colaborar e em tudo que tem a ver com o hobby. Além do mais misturar o tempo de jogo com socialização (ou ao ponto de haver apenas um deles) não me parece ser suficientemente completo para a experiência de um evento de RPG.

De qualquer modo agradeço a todos que me ajudaram a poder partilhar de ambas as experiências: obrigado!

Se estiverem interessados nas reflexões de alguns dos participantes, e não só a minha, dêem uma vista de olhos aqui e aqui tal como nalguns links que aqui nomeei.

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3 comments on “Encontros & Desencontros: Report da LeiriaCon e do TáQuinas D&D Gameday

  1. Diogo Curado diz:

    Oi,

    Generalidades: Todos estes eventos são bons para colocar a “comunidade” de roleplayers de Portugal em contacto e em todos podemos e devemos aprender alguma coisa para melhorar o evento seguinte.

    Agora acho que para já há uma coisa que devemos interiorizar, como organizadores e participantes, temos que ter a noção que vamos para estes eventos para jogar aqueles jogos naquela altura e que essa tarde, dia, dois dias, o que for é para ser dedicado a fazer parte desse evento. Essa dispersão que falas “dividir demasiado pela organização do evento de RPGs, pela participação na LeiriaCon em geral e fazer de anfitrião à namorada e amigos mais próximos e como isso não me trouxe um grande gozo mas uma boa dose de frustração e ansiedade.” acho que vem dai, não fazer tudo ao mesmo tempo vais para um sitio fazer uma coisa que exige alguma dedicação durante um par de horas, não vale a pena tentar equilibrar com fazer outras coisas.

    Quanto ao público-alvo, de momento acho que é mesmo o grupo de gamers no geral, porque se virmos bem não existe propriamente uma comunidade de roleplayers. Alguns de nós partilhamos o mesmo site, alguns até são capazes de jogar os mesmos jogos, mas é mesmo só isso, uma comunidade é algo mais e ainda estamos a dar os primeiros passos nessa direcção e para isso devo louvar o espírito da malta de Coimbra e a comparência deles em Leiria para jogarem jogos que não conheciam e depois como nos acolheram no D&D Game Day.

    Para criar uma comunidade é preciso isso, a vontade de cada um de querer conhecer os outros, os seus interesses dentro do hobby, mostra-lhes os que nós gostamos assim como eles nos mostram do que é que eles gostam. Estamos a dar bons primeiros passos nessa direcção, com a realização destes eventos, com o surgimento dos podcasts (como o do Sr. Tavares), por isso agora é continuar e ver onde é que isto vai dar. Por mim cada Con de BG é um bom motivo para nos encontrarmos até decidirmos finalmente tentar organizarmos uma específica de RPGs, até lá vamos ganhando estaleca no assunto hehe.

    Tudo felicidades,
    Diogo Curado

  2. jrmariano diz:

    Obrigado pelo comentário, Diogo!

    Concordo em geral (passo a redundância) contigo e de certo modo a reflexão que fiz aqui no blogue levou-me a querer-me de focar de futuro em só num dos aspectos de uma convenção que enumerei.

  3. Marco Godinho diz:

    Epa, só agora vi isto!Bom apanhado do que tem acontecido na cena do rpg tuga, jrmariano!

    Tenho de seguir este blog com maior regularidade. Cumps!

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